sexta-feira, 21 de junho de 2013

algumas impressões em relação ao despertar repentino do gigante

algumas impressões em relação ao despertar repentino do gigante se confirmaram hoje. é legal, é simbólico e é legítimo estar nas ruas e ocupar espaços públicos para expressar descontentamento. mas chegar lá e ficar todo mundo se olhando e pensando no "e agora?" é complicado. acho que a ausência de pautas - ou pautas demais, e genéricas demais - são determinantes pra essa confusão, inclusive pra se ter todo tipo de reivindicações, desde as mais conservadoras, juntas. e tenho minhas dúvidas da efetividade desse tipo de movimento, pela inexistência - ou difusão - da pauta. por outro lado, uma polícia truculenta como a nossa dá vontade de continuar no protesto só pra contrariar, já que tá difícil ver reivindicação concreta. 
junto da ausência de pautas, o autoritarismo que vem aparecendo é bem questionável. não compro a ideia de golpe porque acho que a conjuntura não permite, mas certo tom antidemocrático nas manifestações é evidente. e nem vou entrar na questão do vandalismo, porque pode recair num moralismo que alguns setores da cobertura jornalística já estão adotando, ao enquadrar o que é ou não um manifestante "de bem", por assim dizer.
por fim, acho interessante ver o pessoal na rua e, com sorte, a criação de uma cultura política de exigir os direitos e tomar consciência de que os assuntos públicos também dizem respeito a cada um de nós - é, consigo ser otimista de vez em quando. mas acho também que ocupar a rua ou prédios públicos é pouco, e se for pra descambar pra autoritarismo e pra defesa de pautas conservadoras, não consigo ser tão otimista em relação aos benefícios de termos a sociedade civil na rua. nesse caso, era melhor o gigante voltar a dormir.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Política do abandono

O final da parceria entre o Espaço Unibanco e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura revela mais do que a mera perda de um – e  praticamente único – cinema que exibe filmes de arte em Fortaleza. Como se isso não fosse lamentável o suficiente, a separação deixa claro o processo de sucateamento e abandono do qual o Dragão do Mar é vítima.

Enquanto se fala em revitalização da Praia de Iracema, com a reforma do calçadão e de alguns equipamentos do lugar, além da construção do Acquario do Ceará, parece que o equipamento fica esquecido. É certo que a ligação do Dragão do Mar com seu entorno sempre foi conflituosa. A população das comunidades vizinhas parece não se reconhecer no Centro Cultural, e a própria programação não é mais tão atrativa como foi na época em que o Dragão não era um espaço só de difusão cultural, mas também formador e produtor de artistas.

O criador do projeto que deu origem ao Dragão do Mar, Paulo Linhares, disse que a ideia era que, antes de tudo, houvesse espaço para formação de artistas e incentivo à criação, e é isso tudo que não existe no equipamento atualmente. A maioria das atrações, hoje, está nos arredores, ligados à indústria do entretenimento. A ausência de políticas culturais para o Dragão do Mar é um contrassenso, pois ocorre no momento em que um Centro Cultural da Caixa Econômica será inaugurado em frente a ele. Os dois centros se completariam, e alguns dos problemas que atingem a área, como a violência, poderiam ser minimizados com o aumento do fluxo de pessoas e do efetivo policial.

O descuido do Governo para com o Dragão do Mar é visível até fisicamente. A Praça Verde, que não tem mais grama, é um exemplo. As pedras soltas na Praça Rogaciano Leite Filho também. A pintura descascando atesta que o espaço precisa de um pouco mais de atenção. O pior é que a direção do lugar age como se não tivesse explicações para dar, como se o Dragão estivesse funcionando sem problemas. É bom lembrar que se trata de um equipamento singular no Ceará, com 30 mil metros quadrados dedicados – teoricamente – à cultura.

O descaso do Governo do Estado com a Secretaria da Cultura (Secult) também pode ter contribuído para a situação do Dragão. Por não ser política pública – e sim fazer parte do projeto de uma gestão –, ser subordinado a um governador como Cid Gomes pode ser fatal para o Centro Cultural. E se a própria Secult passou meses sem comandante efetivo, imagine como são tratados os equipamentos que dependem dela para acontecer.

O Governo do Estado não pensa cultura como política pública a ser fomentada para elevação do nível intelectual do cearense. Para nossos mandatários, o lucro precisa ser imediato, e necessariamente monetário, o que nem sempre a produção cultural conseguirá proporcionar. O Governador, que parece frequentar apenas espetáculos megalomaníacos no exterior – para tentar fazer uma versão tupiniquim –, pensa que basta colocar um chapéu de engenheiro para resolver todas as necessidades da população, até as imateriais.

Não podem ser esquecidas, no entanto, outras carências que temos, impossíveis de serem supridas com grandes obras. São carências no campo da formação educacional e cultural, e elas só serão resolvidas com uma política efetiva de fomento à cultura. Não nos contentemos com as migalhas oferecidas, pois elas só enganam nossa fome. E de paliativos estamos fartos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entrevista com Juca Ferreira

Juca Ferreira é sociólogo, Embaixador Especial da Secretaria Geral Iberoamericana (SEGIB) e ex-Ministro da Cultura. Sua gestão no MinC deu continuidade à política iniciada por Gilberto Gil, que deixou o cargo em agosto de 2008. “Mesmo nas melhores famílias políticas, se dá muito pouco valor à dimensão cultural. É como se fosse suficiente botar um pouco mais de dinheiro no bolso das pessoas e pronto. E a gente acha que não”, afirmou Juca.

A cultura como elemento essencial à vida das pessoas foi uma das dimensões trabalhadas enquanto o sociólogo era Ministro da Cultura. Uma das prioridades era a Reforma na Lei de Direitos Autorais. “É preciso modernizar essa lei. É uma lei extremamente rigorosa, que não protege o autor, que não facilita o acesso”, disse Juca.

No final de 2010, após seis anos de debate, o texto da reforma na lei foi concluído. Quando assumiu o Ministério da Cultura, em 2011, Ana de Hollanda afirmou que seria necessário rever tudo acerca da mudança. Ela afirmou, em entrevista à revista Carta Capital, em março, que parece haver uma campanha para satanizar o autor. “É, na verdade, uma lógica burra. Pouco se lê no Brasil, por exemplo. É 1,7 livro per capita/ano. Se isso continuar assim, não há mercado. Então, não há direito autoral”, explicou o sociólogo.

Confira a entrevista aqui!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Continua lindo (?)

Recentemente, tive duas experiências interessantes relacionadas ao Rio de Janeiro. No começo de julho, passei 10 dias lá, e tive certeza de que é uma das cidades mais fantásticas que já visitei. Já na semana passada, vi uma palestra do deputado Marcelo Freixo, com uma argumentação que quebra bastante a ideia de cidade maravilhosa.
Dos dias que passei no Rio, algumas coisas me encantaram particularmente. A beleza dispensa comentários. Fiquei encantada com a vida cultural e com como as pessoas ocupam as ruas. Fiquei surpresa quando vi um bairro nobre como Copacabana com as pessoas na rua à noite como se estivessem no centro, uma coisa inimaginável para nossa provinciana Aldeota. Do terror que a Globo noticia, não vi nada. Pelo contrário, me senti bem mais segura andando pelas ruas do Rio que passeando por Fortaleza, uma vez que até as calçadas são mais favoráveis ao pedestre.
Quanto à vida cultural, não preciso nem falar dos teatros e da abundância de opções. Mas o que me deixou apaixonada mesmo foi a salinha de cinema abaixo.

O Cine Joia é daquelas coisas que deveria ter em qualquer cidade. Um cinema de rua, especializado em filmes que estão fora do circuito comercial. Assisti a um belíssimo lá, que recomendo a qualquer um: Hanami - Cerejeiras em flor. Acostumada a só ter cinemas em shoppings, fiquei muito feliz de estar em um lugar que os cinemas estão na rua, e não se consome só blockbusters.
Algumas semanas depois, veio um encontro com a explicação de algumas coisas. Marcelo Freixo, em sua palestra, explicou bastante sobre as milícias e o crime organizado, e tive certeza que a realidade no morro não é a mesma da zona sul. É muito curioso que a criminalidade se concentre no morro e seja tão difícil de ser combatida. Alguém está ganhando bastante com isso, e aí o deputado mostrou a importância da ação do caveirão e do BOPE no trabalho das milícias.
Fiquei, ainda, bastante atiçada pela provocação que ele fez: colocar o caveirão, num domingo a tarde, na Av. Vieira Souto, com seu alto-falante ligado. Ou será que os criminosos estão apenas na favela?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Do humor

Olha, se tem uma coisa que vem me deixando possessa de raiva nos últimos tempos é essa história de que se pode brincar com tudo, já que é piada.
Primeiro, o Rafinha Bastos fazendo piada com estupro e se achando "O" polêmico. Depois, o Danilo Gentilli com piada sobre os campos de concentração, e, embora talvez a brincadeira não tenha sido pra isso tudo, esse pessoal do CQC é tão prepotente que merece um puxão de orelha sempre que possível.
Ontem, eis que entro no twitter e encontro a seguinte tag nos TT's: #sexojusto. Quando cliquei pra descobrir o que era, encontrei um site extremamente machista e voltado pra fazer piada com mulher. É só passear pelo site que vocês encontrarão as maravilhas dele, apesar de eu dever avisar que é necessário controlar o vômito, também.
O que eu não consigo entender, de jeito nenhum, é como uns homens assim podem se relacionar com mulheres. Ou até entendo, visto que algumas riem das piadas. Não consigo achar um pingo de graça em se afirmar que a mulher tem que ir pro fogão e aceitar as traições do marido em pleno século XXI, depois de todas as lutas e conquistas pelas quais elas passaram até conseguir a emancipação do homem e um lugar no mercado de trabalho.
Há quem diga que certas coisas não devem ser levadas a sério, mas sob esse leque da piada, do humor, abrigam-se diversos preconceitos, que, muitas vezes, estão só velados, mas continuam lá. Prova é que as mulheres ainda recebem salários mais baixos que os homens em algumas empresas, mesmo fazendo o mesmo serviço, sem contar as discriminações raciais, que também são muitas.
Não vou entrar pra patrulha do politicamente correto, mas é necessário saber ser engraçado e entender que nem tudo é motivo pra piada. No mesmo site, encontra-se uma tirinha "de macho" fazendo brincadeira com mulheres estupradas. Por favor, né? Não há quem me convença que homens que apreciam esse tipo de coisa gostem, realmente, de mulher.

domingo, 1 de maio de 2011

Impressões de uma vermelha no coração do capitalismo

Em primeiro lugar, devo começar explicando as circunstâncias que me levaram a Orlando, enquanto eu pensava que iria a Cuba. Elas se chamam irmãs. Quando você inclui as duas numa viagem, dá nisso. Mudamos o destino de Havana para os parques da Disney. Eis as adoráveis:
E aí chegamos à terra do Tio Sam. Como boas vindas, o policial federal armado na imigração, com cara de skinhead e que ficou bem desconfiado do meu pai quando o visto dele deu um problema. Mas passamos pelo primeiro desafio. Íamos passar a noite em Miami, e a segunda prova do dia era chegar ao hotel. Esperamos o ônibus que nos levaria, mas tudo indicava que estávamos no local errado. Um estadunidense emburrado depois, que fingiu que não ouviu quando pedíamos informações, encontramos um motorista que explicou para onde deveríamos ir. Até então, já tinha ouvido mais espanhol que inglês e visto mais latinos que estadunidenses. Bem que alertaram que a Flórida não é bem o que você chama de Estados Unidos.
No primeiro hotel, nada a se registrar, fora o recepcionista que sempre responderia em espanhol, não importa o quanto gastasse meu domado inglês para ser o mais nativa possível. Ah, e a chinesa que gritava loucamente no saguão, como se todos estivessem entendendo-a. No jantar, começou a minha saga. Tinha sido alertada de que teria comida sem glúten em todos os restaurantes, e estava bem animada, porque só eu sei como sinto falta de uma pizza. Foi aí que comecei a entender que seria mais fácil comer no Brasil que na terra da democracia.
No segundo dia, pegamos o carro para ir a Orlando. Depois de eu programar o GPS para nos levar de volta ao aeroporto e ficarmos perdidos, conseguimos pegar a estrada. Não preciso nem falar que são que nem as de filme, né? Muitas faixas, velocidade mínima e sem buracos. Para quem vive em Fortaleza, é quase inacreditável. Claro que não demora muito e começam a aparecer os pedágios. Fiquei surpresa de ver algumas obras de alargamento. Parece que alguma coisa do New Deal Obama está aplicando.
Chegando em Orlando, entendi mais ou menos como era a cidade. Ruas largas, tudo muito espalhado, restaurantes, hotéis e condomínios fechados. Pouca gente na rua, andando a pé. Tudo parece ser feito em função do automóvel. Minha primeira tarde na cidade foi gasta no outlet, e ali entendi o que tanto fascina quem gosta de comprar. Calças jeans por 12 dólares, blusas por 6, produtos de beleza por 4. Tudo feito em El Salvador, Guatemala, Malásia, Honduras e, claro, China.
No primeiro dia de parques, fomos ao Busch Gardens. Como adoro montanha-russa, me diverti muito. Presenciei, ainda, uma cena deprimente. Um homem, depois de pegar uma fila de
40 minutos, não pôde descer no brinquedo porque cabia no cinto de segurança. E ainda encontrei a seguinte plaquinha:
Sim, eram cartas dos soldados estadunidenses que tinham ido ao Iraque. Tava demorando pra aparecer algo assim.
O segundo parque, já na Disneyworld, foi o Hollywood Studios. Tive uma aula de indústria cultural. Lá, são apresentados alguns shows que reproduzem cenas dos filmes, como carros pegando fogo e em cenas de perseguição ou o Indiana Jones sendo esmagado por uma pedra. A impressão que dá é que não se pode fazer arte, muito menos cinema, sem gastar muito dinheiro e sem efeitos especiais. Durante o passeio que fizemos por cenas de filmes, um fato que considero uma piada da Disney: colocaram Woody Allen como um dos grandes diretores hollywoodianos. Comecei a entender como a obesidade realmente era um problema ao olhar mais para os lados e ao ver uma das iguarias mais pedidas no parque: coxa de peru. Pedi uma, certa de que não faria mal algum. Vi que não era bem assim quando ela era tão pesada que tinha que revezar segurá-la com outra pessoa e pelo tanto de gordura que continha. Teria sido mais saudável um sanduíche.

O próximo parque era o Magic Kingdom. Ah, seu encantamento, suas princesas, seu calor, seus brinquedos bestinhas... Embora muito bonito, não vale o cansaço. Não dá para visitar a Disney sem conhecê-lo, mas eu pensaria três vezes antes de ir de novo. Pro pessoal de Fortaleza, o show de fogos do reveillon não deixa a desejar quanto ao de lá. A diferença que você vê quando a iniciativa privada tem interesses é que o Magic Kingdom tem um VLT e barcos próprios. Os funcionários são muito atenciosos e simpáticos, mas lembro de ter visto poucos negros no local. Lembrei também da política de intercâmbio na Disney, na qual você acaba pagando para trabalhar, e me soa muito sem sentido algo assim, principalmente para um universitário, que é o alvo do projeto.
O Universal Studios é muito legal, mais voltado pro público adolescente. Curiosa é uma política que eles têm de você comprar um passe que dá direito a passar na frente na fila. Por um preço bem salgado: 70 dólares por pessoa.
No último dia é que fomos no que há de mais interessante. O Island of Adventure e sua parte dedicada ao Harry Potter. Eu, que cresci lendo os livros do bruxo e imaginando como seria fazer parte daquilo, fiquei encantada. O castelo de Hogwarts é uma das coisas mais impressionantes que já vi, temos a impressão de estar dentro do filme. Sem contar o brinquedo, que abusa da tecnologia para nos fazer acreditar que estamos mesmo numa vassoura. Ao ver a cerveja amanteigada, sapos de chocolate e feijõezinhos de todos os sabores à venda, entendi como toda a série é perfeita para virar um parque, filme e todos os produtos em que a indústria cultural queira transformá-la. Ainda assim, minha parte fã ficou bastante encantada de estar ali.

Depois daí, a minha vontade de voltar para casa, que já tava imensa, só aumentou. Já tinha visto o que me interessava, estava doida pela minha comida sem glúten e a saudade de um certo alguém apertava como nunca. E ainda viria uma longa noite em Miami.
Ficamos no hotel do aeroporto. Até aí, pensei que estaria tudo bem, mas descobri que eles cobravam pela internet wi-fi. Como boa jovem imersa na cultura digital, fiquei inquieta e com raiva, e aí sim o tempo demorou para passar. Minha raiva foi ainda maior quando cheguei no aeroporto de Manaus e a internet era gratuita. Acho que as lições de inclusão digital ficaram um pouco defasadas na "América".
Para fechar a minha saída com chave de ouro, tive que tirar o casaco, o sapato e tudo que tivesse no bolso para passar pelo raio-x, aquele que vê tudo, e entrar na sala de embarque, num aeroporto gelado. Respeitar as individualidades não era uma das grandes virtudes do capitalismo?
No final, o que tiro de saldo é poder criticá-los com um pouco mais de propriedade, embora a Flórida tenha suas particularidades, e um passeio muito legal pelos parques. Quando me perguntam se gostei, é o que costumo ressaltar. Gostei dos parques, do entretenimento, mas não aguentaria mais que uma semana.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Pra acabar

Curioso como, de vez em quando, sinto muito da fragilidade e da rapidez da vida. Ontem foi um desses dias. Era aniversário da minha irmã, ao mesmo tempo que senti outros entes perto de ir, como se a hora estivesse por chegar. Uma sensação inédita, pois tenho vaguíssimas lembranças dos que se foram enquanto eu era criança. Acabamos conversando sobre isso, e a conversa versou sobre o prolongamento de uma existência sem sem mais lucidez, sobre a negação da morte e a dificuldade que temos de aceitá-la. Embora ninguém queira ouvir quando está na pele de quem perdeu um querido, o descanso também é necessário. Com os avanços tecnológicos, a chance de adiar o inevitável aumentou, mas é preciso questionar, também, até que ponto resistir como vegetal é interessante e humano. E a conclusão que cheguei é a de que o tempo passa, de que estamos mesmo envelhecendo, como disse ao meu querido intelocutor.
E, se somos mesmo feitos pra acabar, não sei mais o que nos resta fora amar e procurar a justiça, para deixar um legado interessante à posteridade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A culpa é do Fidel (?)

Fazia tempo que pensava em algo pelo que valesse a pena parar um pouco para escrever, mas ainda não tinha encontrado. Eis que abro a internet há pouco tempo e encontro a notícia de que Fidel Castro afirmou que o modelo de Cuba não serve mais nem pra eles. Seria mentira negar a surpresa e o pesar com que li a manchete.
Ao ler a matéria, no entanto, as coisas ficam mais claras. O que não funciona mais é essa burocratização toda, a repressão, e os favorecimentos que, inevitavelmente, aparecem. Creio que a questão não seja ideologia, mas a forma como foi aplicada, uma vez que o comunismo, como prática, não aconteceu de fato. As tentativas de estabelecê-lo acabaram degeneradas, como na União Soviética stalinista, ou sufocadas, como o exemplo da pequena ilha americana. Apesar dos erros, inegáveis são os avanços na educação e na saúde - áreas interligadíssimas - dos cubanos desde a Revolução.
O que é imprescindível, agora, é encontrar novas formas de colocar em prática as idéias de justiça e de igualdade exaltadas em 59, sem esquecer das palavras do Che - que dizia que todo revolucionário era um apaixonado -, porque, sem amor, cai tudo no vazio.
Leia aqui o comentário do Comandante sobre as declarações.

sábado, 14 de agosto de 2010

Do racismo

Fiquei atônita ao ler a notícia sobre a nova manifestação a ocorrer nos EUA. Que a sociedade estadunidense é extremamente conservadora não é novidade. Mas daí a um ato com inspiração nazista, é demais. Parece que a idéia é jogar no lixo os avanços conseguidos na década de 60, esquecendo o quanto custou, tanto em desgaste, quanto em vidas, já que as organizações como a Ku Klux Klan nunca deram muito sossego aos seus perseguidos.
Fico impressionada com a tranquilidade com que se defende a "América para os americanos", e só para os brancos, incriminando todos os outros, tanto estadunidenses mestiços quanto imigrantes. Os resultados da última vez em que se pregou uma raça superior e pura não foram muito bons, e o que era encarado como herança maldita - Hitler e toda a simbologia nazista - está começando a ser visto sem receio. Pelo menos, a quem convém.
Um exemplo do quanto ainda estamos suscetíveis a mais atrocidades e nem sabemos:

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Dizem que ela existe pra proteger



Depois de quase duas semanas viajando, estava meio por fora do mundo. Imagine, então, minha surpresa ao ler o jornal e encontrar uma baita reportagem por causa de um garoto de 14 anos morto por um policial do Ronda do Quarteirão, um dos grandes projetos do Governador Cid Gomes. Ironicamente, o slogan do programa é "a polícia da boa vizinhança".
A indignação vai perpassando a narração dos fatos. O menino estava ajudando o pai no trabalho, e foi morto por ser considerado suspeito e não ter parado quando o guarda ordenou que parasse. O pai, que conduzia a moto, disse que apenas não ouviu a ordem. O policial, no entanto, não quis saber. Atirou e depois perguntou, uma ação não muito incomum quando se trata de suspeitos pobres, ainda mais quando eles são potenciais ameaças à uma área nobre, como o bairro no qual aconteceu o assassinato.
As posições assumidas são diversas. Enquanto o Governador diz ter sido um erro pessoal e que não mancha a imagem da corporação, a Prefeita de Fortaleza defende o desarmamento da Guarda Municipal e criticou o despreparo policial. Fala-se muito, nos últimos tempos, em proteção e em ficar refém dos bandidos, criando um clima de vale tudo e de salve-se quem puder. Ao invés de investir na base, ou seja, na educação, canalizam-se os investimentos para a segurança, especialmente a bélica, como se repressão fosse a solução. Ela até pode intimidar - ainda que de forma sutil -, mas a cada vida perdida por causa dela, tem-se mais certeza de que não é o caminho.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Lugar de mulher

As inúmeras informações sobre o caso do assassinato da amante do goleiro Bruno me enojaram como há muito tempo não acontecia. Não apenas pela brutalidade do acontecido, mas pelas declarações feitas anteriormente pelo próprio jogador, que julga ser aceitável, e até usual, bater em mulheres, escancarando muito do machismo que ainda sobrevive no Brasil.
Há uma coisa que me inquieta muito ao ver toda essa exploração em cima da história: o fato de muitas outras mulheres sofrerem abusos cotidianamente e tudo ser encarado como ordem natural das coisas, sem espanto nenhum. A Lei Maria da Penha está aí, as delegacias especiais, também, mas os crimes continuam sem punição. Parece até que a culpa de ser abusada é da própria mulher, principalmente, em localidades mais interioranas, nas quais o patriarcalismo ainda é bem forte.
Fico preocupada com o quanto essas questões, mais sérias que o caso em si - já transformado em show de horror e de espetacularização pela mídia -, são deixadas de lado, como se não influenciassem ou não existissem. Já ouvi quem dissesse até que a moça era prostituta, buscando uma justificativa para o crime. O pior é que falar em Direitos Humanos quando ainda nos encontramos em um estágio animalesco chega a ser inusitado.

domingo, 27 de junho de 2010

Ler devia ser proibido


Peguei-me pensando, ultimamente, em algumas coisas que tiveram um papel fundamental na formação do meu caráter e das minhas convicções, e, sem dúvida alguma, a leitura foi uma parte imprescindível. Claro que os livrinhos que lhe introduzem ao mundo das letras são importantes, mas falo do que realmente dá suporte ao pensamento, do que, de fato, como diz Mário Quintana, muda as pessoas, e as ajuda a mudar o mundo.
Já escutei, em pleno século XXI, pessoas dizendo que "quem lê demais fica meio doido, ateu, subversivo, perigoso". Então, que sejamos realmente perigosos, independentemente do credo ou da sanidade mental, porque, se for pra transformar esse mundo, tem que ser subvertendo.

"E tão bela é a manhã da liberdade que vale a pena morrer por ela, dar a vida pela certeza de que ela vem, que chegará para os homens. Mas, ah!, amiga, morrer é fácil, seja por uma mulher, seja pela liberdade! Difícil é viver uma vida se sofrimento e de luta, sem desanimar e sem desistir, sem se vender, sem se curvar. Mais que a morte, a liberdade pede a vida de cada um, todos os seus momentos, todas as suas forças."
Jorge Amado - Trecho de "O Cavaleiro da Esperança"

terça-feira, 15 de junho de 2010

O dia em que o Brasil parou

Jurei para mim mesma que, nesta Copa, ia tentar ser mais tolerante e internalizar minha falta de apreço pela Seleção Brasileira. O plano vai até indo bem, estou aproveitando que gosto de futebol para acompanhar alguns jogos, mas hoje foi demais. Vou logo deixar claro: o que me incomoda não é o fato da competição em si, mas do que dela decorre. Parece que o mundo pára para viver algo que se transformou em negócio, puro e simples negócio. Tanto é que o que constatei nos jogos que vi - uma boa parte -, foi apelação pra retranca e covardia. Jogo bonito que é bom, pouquíssimo. Sem contar a polêmica por conta da bola, com uma mão toda dos patrocinadores, certamente.
Voltando ao que me fez abrir uma exceção no meu silêncio patriótico: as notícias. Quando fui ver as novidades do mundo após o jogo do Brasil, eis que deparo toda a página repleta de comentários e fatos sobre a Copa, como se o único acontecimento importante fosse esse. Impossível não fazer a conexão com Bourdieu e seu "Sobre a Televisão", no qual ele fala sobre a prioridade que a grande mídia dá ao que não tem tanta relevância assim, nem causa polêmica, os chamados fatos-ônibus, que agregam todo mundo e ocupam o espaço do que realmente informa. Engraçado que bastava descer a barra de rolagem e encontrar notícias sobre o aumento da aposentadoria, sobre a Coréia do Norte ameaçando a ONU e o mundo e sobre o vazamento de petróleo nos EUA. Até onde imagino, qualquer um desses acontecimentos afetaria muito mais a vida de qualquer ser humano que o resultado de uma partida de futebol.
A diversão é fundamental, mas, se vira circo, começa a ser perigosa - e não é um perigo que beneficie a maioria.

sábado, 5 de junho de 2010

Viva o verde!

Dia do Meio Ambiente é um prato cheio para autopromoção de empresas que dizem ter um compromisso com a preservação da natureza. Até acredito, ainda que com muitas desconfianças, que algumas delas tenham o compromisso com o desenvolvimento sustentável e coloquem em prática algumas ações alegadas, mas engolir que todas que propagam suas benesses de fato o façam é pedir demais à minha consciência.
Tiro pela propaganda de um shopping de Fortaleza, construído no meio do mangue, que alega ter plantado toda a área verde existente ao redor. Achando pouco, mais um edifício está sendo concluído. Desta vez, a poucos metros do rio existente. Em uma cidade na qual qualquer chuvinha parece um dilúvio, um empreendimento do tipo será ótimo para agravar a situação caótica das nossas ruas e aumentar os treinamentos de salto em distância por quais os pedestres têm que passar para poder caminhar sem se molhar. Sem falar das outras implicações, porque construções desse porte não acarretam pequenas consequências.
Há, ainda, a moda verde, como se consumir exacerbadamente não fosse uma das formas de contribuir para a poluição, desmatamento e exploração dos recursos naturais. Para tirar eximir o consumidor de qualquer culpa, as lojas oferecem sacolas retornáveis para a pessoa carregar os inúmeros acessórios dispensáveis que está levando, tudo para que o consumidor só se preocupe em comprar, porque, do resto, o sistema cuida. E como está cuidando bem, não?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Não temos tempo de temer a morte



Entrar no elevador ou receber uma circular condominial no meu prédio são sempre momentos emocionantes, pois não sabemos o que vamos deparar. Entre a proposta de transformar o salão de festas em uma casa de chá - como dizia Cazuza, são caboclos querendo ser ingleses - até a de construir uma rampa para cadeirantes, tudo é possível.
A última proposição foi a de construir uma brinquedoteca comum - com jogos e brinquedos que os infantes têm em casa -, como se as crianças não estivessem preocupadas em correr e liberar energia ao saírem do sufocamento de seus quartos. O argumento é sempre o mesmo: o perigo do mundo, evitar sair de casa por causa da violência... E, assim, os filhos de apartamento, com mentalidade tal, vão se propagando.
Não sei como se pode ambicionar criar uma pessoa esclarecida e ativa socialmente, se ela não conhece a vizinhança - pelo menos, não mantém nenhum contato sem o vidro do carro interpondo-se -. Vai ver que a idéia é só disseminar o "homem de bem", figura da qual tenho um medo profundo, cultivando o seu individualismo característico, capaz de tudo para manter sua proteção - e a da família, claro -.
Eu já vejo a questão por outro lado. Não é porque os perigos são inumeráveis que a solução é trancafiar-se. Pelo contrário, grandes combates são sempre necessários, e não se entra em ação lutando contra as quatro paredes do quarto, nem defendendo apenas SEU quinhão, deixando o do outro para ele se virar sozinho para cuidar.

"Nas ocasiões em que tudo leva ao medo, não se deve ter medo de nada; quando se está rodeado de perigos, não se deve temer perigo algum."
(Sun Tsé)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Por um pouco mais de utopia



Não é preciso muita coisa para me fazer ter saudades do que não vivi nos anos 60/70. Mas o documentário Utopia e Barbárie reacendeu a esperança no porvir, por causa dos elementos que traz.
O filme, que começa com sobreviventes da bomba atômica contando uma das maiores barbaridades já cometidas pelo homem, chega até os dias atuais sem, ao contrário do que vemos com frequência, execrar a juventude do Século XXI, como se fôssemos homogêneos e alienados. Embora eu tenha muitas críticas a fazer sobre minha geração, ressalvas necessitam ser feitas, porque entregar os pontos logo de cara é conveniente demais para ser aceito tão facilmente.
Existem algumas partes especialmente emocionantes, como as cenas de conflitos em 68, as do Chile após a eleição e após o assassinato de Salvador Allende, sem contar as entrevistas. Uma das sobreviventes japonesas da Segunda Guerra, que citei anteriormente, disse que nunca esqueceu a mãe que ninava uma criança sem cabeça logo que a bomba explodiu e devastou grande parte da população da cidade, para não falar do que não se apaga.
Apesar dos diversos elementos que destaquei, o que achei mais fantástico foi a vontade de fazer história - e de, como diz Augusto Boal, viver em sociedade, não apenas vegetar nela - quando terminei de assistir a película, que demorou 19 anos para ser produzida. Infelizmente, o que encontrei, ao deixar a sala de exibição, foi a aridez cotidiana. Entretanto, como a beleza também está nos olhos de quem vê, injeções de ânimo como essas servem para enxergamos o mundo com brilho - e nos dar força para refleti-lo na realidade -.

sábado, 8 de maio de 2010

É de lei



Ao chegar ao fim da segunda parte da empreitada para tirar a Carteira de Habilitação, as aulas de Legislação, fico imaginando o que passa pela cabeça de quem as faz obrigatórias. Lógico que é necessário ter uma noção do que se passa no Código de Trânsito, mas daí a decorar as infrações - que, normalmente, continuam a ser cometidas -?
O pior é que, se o objetivo é conscientizar, ele vai por asfalto abaixo. Como se costuma fazer após uma avaliação, esquece-se do que foi estudado, principalmente, na prática. Prova disso são as altas taxas de morte no trânsito. Será que toda essa burocracia é, de fato, a solução?
O ditado "santo de casa não faz milagre" é verdadeiríssimo no Brasil. Décadas depois dos estudos de Paulo Freire, inclusive ressaltando a importância da autonomia do aluno, ainda se insiste na imposição das determinações, sem diálogo algum. Em um local onde, ao invés de preocuparem-se em mudar a lei, os "cidadãos" preferem buscar meios de dar um jeitinho e burlá-la, é, realmente, muito mais conveniente.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Mergulho no silêncio

Segunda-feira, horário de pico, terminal lotado. Como de costume, ele senta no mesmo banco, para esperar o mesmo ônibus. Entra-e-sai, pregações, conversa e barulho, muito barulho. Tudo seguia em acordo com a normalidade, quando ele sente uma mudança súbita.
De repente, como se todos ficassem consternados, o único som que rompe o silêncio é o barulhinho de tic-tac do vendedor. Nem um ônibus, nem uma palavra. Pensamentos somente, e cada um guardando o seu. Ele ficou tão impressionado que mal conseguiu levantar do lugar onde estava sentado; só queria observar, para não estragar aqueles minutos tão improváveis. Em meio à conturbada rotina e às muitas palavras inúteis gastas a todo hora, um diminuto tempo para organizar as ideias parecia um oásis.
E foi pouco mesmo. Logo depois, ele se deu conta de estar, novamente, imerso na loucura nossa de cada dia, com os ônibus fazendo seus barulhos característicos e as pessoas correndo. Provavelmente, para viver.
Ele, ainda no piloto automático, entrou no Varjota para ir pra casa. Surpreso, acordou com o barulho da cordinha puxada por si mesmo, ao notar que perdera a parada.

A um amigo que, muito mais que a inspiração do texto, me traz a inspiração cotidiana, ainda que ele nem saiba disso.

domingo, 18 de abril de 2010

É a conta menor que tiraste em vida



Mais um aniversário do massacre dos camponeses em Eldorado dos Carajás chega e pouca coisa muda. Apesar de terem ganhado um dia que deveria nos lembrar a injustiça ainda reinante, os trabalhadores sem terra continuam amargando as antipatias usuais das elites e dos meios de comunicação que as refletem, como se lutassem por uma causa imoral.
O MST é, frequentemente, reduzido a uma corja de radicais preocupados em danificar a terra alheia. Esquece-se, porém, de que muitos desses latifúndios causam um dano social muito maior, pois permanecem improdutivos, enquanto milhares de pessoas não têm, literalmente, onde caírem mortas. A grande mídia, por sua vez, exerce, magistralmente, o papel de conservadora do status quo, já que reforça, de todas as formas possíveis, os preconceitos e satanizações do movimento.
Li, uma vez, não tenho certeza se era verdade, que existe, no Amazonas, uma fazenda do tamanho do estado de Sergipe. Verídica ou não, a informação ilustra a gravidade da questão fundiária no Brasil. Em uma situação assim, reforma agrária só pode ser considerada obra do capeta mesmo. E, do jeito que a palavra de Deus tem sido usada por quem não devia, não é de surpreender que o coisa ruim cuide do Reino dos Céus.

Uma atualização: Nessa semana, aqui no Ceará, onde não imaginava que os conflitos por terra fossem tão intensos, um líder comunitário foi cruelmente assassinado, provavelmente, pelas causas que defendia. São muitos, quantos mais teremos que contar?

domingo, 11 de abril de 2010

Bento XVI e a Igreja Católica



Confesso que tive dúvidas para escolher sobre o que escrever nestes dias. Mais cedo, abri meu email e a definição veio: recebi um bom texto de Frei Betto, no qual ele comentava os últimos acontecimentos da Igreja. Vou apenas reproduzi-lo abaixo, pois o que eu poderia dizer, já foi colocado - e de uma forma bem mais competente -.

Vinde a eles as criancinhas? - Frei Betto*

As sucessivas denúncias de pedofilia e abuso sexual cometidos por sacerdotes e acobertados por bispos e cardeais envergonham a Igreja Católica e abalam a fé de inúmeros fiéis.
No caso da Irlanda, onde mais de 2 mil crianças entregues aos cuidados de internatos religiosos foram vítimas da prática criminosa de assédio sexual, o papa Bento XVI divulgou documento em que pede perdão em nome da Igreja, repudia como abominável o que ocorreu e exige indenização às vítimas.
Faltou ao pontífice determinar punições da Igreja aos culpados, ainda que tenha consentido em submetê-los às leis civis. O clamor das vítimas e de suas famílias exige que a Santa Sé aja com rigor: suspensão imediata do ministério sacerdotal, afastamento das atividades pastorais e sujeição às leis civis que punem tais práticas hediondas.
A crescente laicização da sociedade europeia reduz drasticamente o número de fiéis católicos e a freqüência à igreja. O catolicismo europeu, atrelado a uma espiritualidade moralista e a uma teologia acadêmica, afastado do mundo dos pobres e imbuído de um saudosismo ultramontano que o faz ignorar o Concilio Vaticano II, perde sempre mais o entusiasmo evangélico e a ousadia profética.
Dominado por movimentos fundamentalistas que cultivam a fé em Jesus, mas não a fé de Jesus, o catolicismo europeu cheira a heresia ao incensar a papolatria e encarar o mundo não mais como vale de lágrimas e sim como refém de um relativismo que corrói as noções de autoridade, pecado e culpa.
Ao olvidar a dimensão social do pecado, como a injustiça, a opressão, o latifúndio improdutivo ou a apologia da desigualdade, o catolicismo liberal centrou sua pregação na obsessão sexual. Como se Deus tivesse incorrido em erro ao tornar a sexualidade prazerosa. Como o Espírito Santo se vale de vias transversas para renovar a Igreja, tomara que as denúncias de pedofilia eclesiástica sirvam para pôr fim ao celibato obrigatório do clero diocesano, permitir a ordenação sacerdotal de homens e mulheres casados e ultrapassar o princípio doutrinário, ainda vigente, de que, no matrimônio, as relações sexuais são admissíveis apenas quando visam à procriação. Ora, tivesse Deus de acordo com tal princípio, não teria feito do gênero humano uma exceção na espécie animal e, portanto, destituiria o homem e a mulher da capacidade de amar e expressar o amor por meio de carícias e incutiria neles o cio próprio dos períodos procriatórios dos bichos, o que os faz se acasalar.
Jesus foi celibatário, mas é uma falácia deduzir que pretendeu impor sua opção aos apóstolos. Tanto que, segundo o evangelho de Marcos, curou a sogra de Pedro (1, 29-31). Ora, se tinha sogra, Pedro tinha mulher. E ainda foi escolhido como primeiro cabeça da Igreja.
Os evangelhos citam as mulheres que integravam o grupo de discípulos de Jesus: Suzana, Joana etc. (Lucas 8, 1-3). E deixam claro que a primeira pessoa a anunciar Jesus como Deus entre nós foi uma apóstola, a samaritana (João 4, 39).
Nos seminários e casas de formação do clero e de religiosos é preciso avaliar se o que se pretende é formar padres ou cristãos, uma casta sacerdotal ou evangelizadores, pessoas submissas ao figurino romano ou homens e mulheres dotados de profunda espiritualidade evangélica, afeitos à vida de oração e comprometidos com os direitos dos pobres.
No tempo de Jesus, as crianças eram desprezadas por sua ignorância e repudiadas pelos mestres espirituais. Jesus agiu na contramão dos preceitos vigentes ao permitir que as crianças dele se aproximassem e ao citá-las como exemplo de fidelidade a Deus. Porém, deixou claro que seria preferível amarrar uma pedra no pescoço e se atirar na água do que escandalizar uma delas (Marcos 9, 42). As sequelas psíquicas e espirituais daqueles que confiaram em sacerdotes tarados são indeléveis e de alto custo no tratamento terapêutico prolongado. As vítimas fazem muito bem ao exigir indenização. Resta à Igreja punir os culpados e cuidar para que tais aberrações não se repitam.
*Escritor e assessor de movimentos sociais.

Espera-se que a justiça seja feita - sem diferenciações - para ver se as Igrejas, de um modo geral, passam a enxergar as necessidades dos seus fiéis, já que muitos não têm nem o pão nosso de cada dia.