domingo, 4 de abril de 2010

Terra nem tão civilizada assim

Fui, na semana Santa, visitar uns tios que moram no Maranhão. Embora não tivesse ouvido falar bem do estado, gostei muito. Assim como as de Alcântara, as ruas do centro histórico de São Luiz transpiram história e beleza, o que serviu para aumentar minha indignação com o que foi feito do lugar.
Indignação de ver casarões, alguns com mais de 200 anos, abandonados. Tombados, mas sem conservação alguma. Azulejos arrancados, plantas tomando conta das casas e, nas habitadas, moradias miseráveis são cenas comuns quando se passeiam pelas ruas de calçamento do centro da capital. Em meio a esse mar de descaso, há um antigo convento bem arrumado. Explica-se logo: o prédio abriga o Memorial de José Sarney.
A impressão que se tem é a de estar em uma terra sem dono. Aliás, com um só: uma certa família. Precisa explicitar qual? É o velho costume de governar o bem público como se fosse privado, sacrificando, se preciso for, uma população, a história e o desenvolvimento de um estado, porque prestar esse desserviço em 40 anos é perfeitamente possível.
Por fim, há uma música em um supermercado maranhense que diz que o local é bom demais. Eu o modificaria afirmando que há tempo de torná-lo muito bom. Não eleger os Sarney - nem deixá-los tomar o poder a força, como fizeram no último pleito - já é um grande primeiro passo.

domingo, 21 de março de 2010

Seja o que for, seja por amor às causas perdidas

Depois da euforia por passar no Vestibular - o obstáculo mais instransponível que eu conhecia - e dos primeiros dias de magia por estar na faculdade, a ficha começa a cair. E o primeiro pensamento foi: Putz, cresci!
Apesar de sonhar com independência, não posso negar a angústia que encarar a "vida real" me causa. E se eu não viver sorrindo para exibir minha felicidade consumível? E se não arranjar um emprego no qual ganhe, por mês, o que muitos não recebem a vida toda? E se não tiver casa, filhos e carro na garagem?
Parece que se chega a uma etapa em que todos devem agir uniformemente, levando as mesmas insossas vidas - variando, apenas, os personagens -. Dedicar a vida a outra coisa que não seja exibir o filho, campeão em suas múltiplas atividades extra-curriculares, como troféu é absurdo, porque a ordem é não se importar com mais nada que não seja si mesmo e os entes queridos. Este é um dos poucos momentos em que penso em colocar uma criança no mundo, só para me juntar aos que educam os seus na contramão.
O fato é que, como não deve ser difícil de perceber, sou uma criatura atípica. Não quero ter uma mansão, ostentar três carros na garagem ou viver "feliz". Segundo alguns, penso pequeno, porque poderia enriquecer e ser bem sucedida, como se fossem sinônimos. O que chamam de sucesso, chamo de amarras. E sinto - na verdade, não tenho remorso algum por isso - desapontar os que crêem que tudo é monetarizável, mas meu sucesso não é rentável, pois não quero fazer mais do que o dever de cada um: lutar contra a injustiça e desigualdade reinante, reanimando-me cotidianamente, por mais desestimulante que seja a realidade. Quem sabe se, com um pouco de amor, as causas perdidas não voltam a ser possíveis?

terça-feira, 9 de março de 2010

Sujeira pra todo lado!



Vivemos em um país tão pitoresco que nos espantamos quando a lei é cumprida. A última surpresa foi ver o habeas corpus de Arruda ser negado, além da permissão para reabrir a Operação Satiagraha.
Há uma inversão de valores tão absurda que parece errado ser honesto ou pensar em alguém que não seja você mesmo - e nos (poucos) entes queridos -. Falando em favorecimentos, no mínimo, obscuros, é curioso como se costuma tratar o bem público como particular, mas na hora de arcar com as consequências, a maioria foge. Seria interessante se os que assaltam os cofres do Estado pensassem nelas antes de fazê-lo, mas pedir que saiam de suas confortáveis posturas é demais, embora não seja mais que a obrigação deles.
É impossível não sentir a esperança renascendo ao deparar as notícias indicando certa mudança. Espero que não seja como o Mito de Sísifo, no qual o protagonista quase chegou ao topo de uma montanha carregando uma pedra e ela desaba em cima dele. Que não tenhamos, novamente, os sonhos esmagados.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Arruda ressentido. Quem perguntou como se sente o cidadão?

Não sei nem dizer se realmente fiquei abismada, mas não posso negar a surpresa ao ler que o ex-Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, se disse ressentido devido aos últimos acontecimentos. Parece um teste para ver até quando ainda é possível brincar com a população impunemente.
As imagens - e o passado do político - não negam que ele merece a cadeia, e Arruda ainda tem a cara-de-pau de inventar chateação. A única razão pela qual seu aborrecimento seria aceitável é o fato de o Brasil ser um país onde trapacear e tirar vantagem são atividades encaradas com normalidade e ele teve o azar de ser flagrado cometendo o crime. E uma medida mais exótica ainda: a lei está sendo, até agora, cumprida. Certamente, o ex-Governador vislumbrava um acordão para salvar o pescoço, o que se mostrou uma ilusão. Só espero que, daqui a alguns dias, não haja motivo para ele caçoar da sociedade que o julgava impotente.
A afirmação de Arruda fez-me, ainda, levantar outra questão: se ele, com todas as mordomias das quais dispunha - tudo pago pela população -, acha-se no direito de reclamar de algo, imagine o cidadão comum, que paga seus impostos sem receber nada em troca, que encara uma jornada de trabalho exaustiva por um salário mínimo. Sorte dos poderosos que a tensão social no país é pequena - sem mencionar o grau de reflexão crítica das pessoas -, senão, estaríamos vivendo em um barril de pólvora. E motivos para sua explosão não faltam.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Vão viver sob o mesmo teto até que a morte os una

Estava em um bar, durante o Carnaval, em que tocava Raul Seixas e oferecia sinuca para os clientes, quando uma amiga comentou comigo a cena a que tinha acabado de assistir: uma família bem convencional passava pelo local, com os vidros do carro fechados, claro. De repente, o filho olha para dentro do "antro de perdição" e o pai dá-lhe um tapinha nas costas, como quem o manda ficar longe daquilo.
Cada um tem o direito de ir aonde quiser, de frequentar os lugares que desejar - e vai-se criando uma população que só conhece o próprio umbigo -, mas que se mantenha, ao menos, a coerência. Duvido que esse pai de família nunca tenha estado em ambientes como o que agora quer afastar. Vai ver que é o mesmo rapaz que, há alguns anos, fumava maconha porque todo mundo o fazia.
Não quero dizer que as posições não possam ser revistas, mas sem falso moralismo. Uma violência muito maior que contemplar a vida boêmia é a frieza cotidiana, por exemplo. Presenciar o pai pensando em cianureto - e a mãe sonhando com formicida - é bem mais traumatizante que o contato com a vida real. O preocupante é que o atual filho terá sua família daqui a alguns anos, quiçá, carregando os mesmos vícios - constantemente, encarados como virtudes -.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Inteligência ficou cega de tanta informação

Estava procurando um pretexto para escrever sobre o assunto, quando minha irmã pequena e meu primo me disseram que eu sabia tudo, afinal, terminara o 3º ano. Inocências infantis à parte - já que eles não têm noção do que lhes aguarda -, a afirmação serviu para lembrar quanta inutilidade ganhei no ano passado.
Deixando de lado a parte afetiva, que se desenvolveu imensamente no calor das emoções, posso contar nos dedos o conhecimento adquirido nesse finalzinho de escola. Até consegui entender melhor algumas situações, embora que a maioria seja as que merecem combate cotidiano.
Compreendi como é fácil crescer e ir-se acomodando. A receita é simples: chega-se à casa esgotado ou esgotada de tantas atribuições e a única coisa que se deseja é uma cama e uma televisão, nada que exija reflexão. Como trabalha-se para possuir confortos que nem são utilizados, pois não dá tempo, entra-se no ciclo trabalhar-para-descansar, que parece começar antes, no se-matar-para-passar. E, a partir daí, vem o status, os parabéns, o primeiro emprego e as obrigações pequeno-burguesas. Como diz um entrevistado em um documentário ao qual acabei de assistir - Surplus -, protestar e tentar mudar algo não é sem sentido. Sem sentido é ficar sentado, usando drogas, assistindo a MTV, arranjar um emprego e se submeter. Isto é violência.
Apesar de não ter dividido as questões que as crianças me trouxeram com elas, percebi que, ao contrário do que imaginam, não devo saber muito mais que antes, pois é complicado desenvolver a mente ao privar-se de excelentes leituras e filmes durante o ano. Vai ver que é este o objetivo: atrofiamos tanto que esquecemos até nossas convicções, perpetuando o mundo de sempre, deixando os sonhos em vidas passadas.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

CHII-CLEE-TE!

É incrível como as músicas de qualidade duvidosa pregam na cabeça com uma facilidade imensa. Basta escutá-las na rua uma vez para que elas passem o dia ressoando, enquanto você tenta concentrar-se, ou, simplesmente, ficar em silêncio, ainda que internamente.
O que mais me espanta nelas, no entanto, não é a capacidade de se fazer memorizar, mas as letras sem conteúdo algum. "Eu quero mais é beijar na boca", "Paz, Carnaval, futebol: não mata, não engorda e não faz mal", "Encosta n'eu, dá um cheiro n'eu", pérolas da poesia, ficam sendo repetidas como mantras, lembrando-me as lavagens cerebrais de "Admirável Mundo Novo".
Em uma sociedade vazia, elas reproduzem a mentalidade da população, preocupada apenas com o prazer a qualquer preço - que saudades dos epicuristas e seu hedonismo inteligente - e com o placar do jogo de domingo. Pior ainda, condicionam-na a crer que estão vendo tudo o que existe, servindo para conformá-la e controlá-la.
É necessária, portanto, uma reeducação - até ideológica -, pois não há avanço sem confronto com a realidade. Se as músicas da moda não mais agradáveis, poucas delas acrescentam algo ao ouvinte. Que falta fazem os Festivais de Música que representavam toda a resistência e força de uma geração. O problema é que, talvez, o que falte não seja os Festivais, e sim, a resistência.