Dia do Meio Ambiente é um prato cheio para autopromoção de empresas que dizem ter um compromisso com a preservação da natureza. Até acredito, ainda que com muitas desconfianças, que algumas delas tenham o compromisso com o desenvolvimento sustentável e coloquem em prática algumas ações alegadas, mas engolir que todas que propagam suas benesses de fato o façam é pedir demais à minha consciência. Tiro pela propaganda de um shopping de Fortaleza, construído no meio do mangue, que alega ter plantado toda a área verde existente ao redor. Achando pouco, mais um edifício está sendo concluído. Desta vez, a poucos metros do rio existente. Em uma cidade na qual qualquer chuvinha parece um dilúvio, um empreendimento do tipo será ótimo para agravar a situação caótica das nossas ruas e aumentar os treinamentos de salto em distância por quais os pedestres têm que passar para poder caminhar sem se molhar. Sem falar das outras implicações, porque construções desse porte não acarretam pequenas consequências. Há, ainda, a moda verde, como se consumir exacerbadamente não fosse uma das formas de contribuir para a poluição, desmatamento e exploração dos recursos naturais. Para tirar eximir o consumidor de qualquer culpa, as lojas oferecem sacolas retornáveis para a pessoa carregar os inúmeros acessórios dispensáveis que está levando, tudo para que o consumidor só se preocupe em comprar, porque, do resto, o sistema cuida. E como está cuidando bem, não?
Entrar no elevador ou receber uma circular condominial no meu prédio são sempre momentos emocionantes, pois não sabemos o que vamos deparar. Entre a proposta de transformar o salão de festas em uma casa de chá - como dizia Cazuza, são caboclos querendo ser ingleses - até a de construir uma rampa para cadeirantes, tudo é possível. A última proposição foi a de construir uma brinquedoteca comum - com jogos e brinquedos que os infantes têm em casa -, como se as crianças não estivessem preocupadas em correr e liberar energia ao saírem do sufocamento de seus quartos. O argumento é sempre o mesmo: o perigo do mundo, evitar sair de casa por causa da violência... E, assim, os filhos de apartamento, com mentalidade tal, vão se propagando. Não sei como se pode ambicionar criar uma pessoa esclarecida e ativa socialmente, se ela não conhece a vizinhança - pelo menos, não mantém nenhum contato sem o vidro do carro interpondo-se -. Vai ver que a idéia é só disseminar o "homem de bem", figura da qual tenho um medo profundo, cultivando o seu individualismo característico, capaz de tudo para manter sua proteção - e a da família, claro -. Eu já vejo a questão por outro lado. Não é porque os perigos são inumeráveis que a solução é trancafiar-se. Pelo contrário, grandes combates são sempre necessários, e não se entra em ação lutando contra as quatro paredes do quarto, nem defendendo apenas SEU quinhão, deixando o do outro para ele se virar sozinho para cuidar.
"Nas ocasiões em que tudo leva ao medo, não se deve ter medo de nada; quando se está rodeado de perigos, não se deve temer perigo algum." (Sun Tsé)
Não é preciso muita coisa para me fazer ter saudades do que não vivi nos anos 60/70. Mas o documentário Utopia e Barbárie reacendeu a esperança no porvir, por causa dos elementos que traz. O filme, que começa com sobreviventes da bomba atômica contando uma das maiores barbaridades já cometidas pelo homem, chega até os dias atuais sem, ao contrário do que vemos com frequência, execrar a juventude do Século XXI, como se fôssemos homogêneos e alienados. Embora eu tenha muitas críticas a fazer sobre minha geração, ressalvas necessitam ser feitas, porque entregar os pontos logo de cara é conveniente demais para ser aceito tão facilmente. Existem algumas partes especialmente emocionantes, como as cenas de conflitos em 68, as do Chile após a eleição e após o assassinato de Salvador Allende, sem contar as entrevistas. Uma das sobreviventes japonesas da Segunda Guerra, que citei anteriormente, disse que nunca esqueceu a mãe que ninava uma criança sem cabeça logo que a bomba explodiu e devastou grande parte da população da cidade, para não falar do que não se apaga. Apesar dos diversos elementos que destaquei, o que achei mais fantástico foi a vontade de fazer história - e de, como diz Augusto Boal, viver em sociedade, não apenas vegetar nela - quando terminei de assistir a película, que demorou 19 anos para ser produzida. Infelizmente, o que encontrei, ao deixar a sala de exibição, foi a aridez cotidiana. Entretanto, como a beleza também está nos olhos de quem vê, injeções de ânimo como essas servem para enxergamos o mundo com brilho - e nos dar força para refleti-lo na realidade -.
Ao chegar ao fim da segunda parte da empreitada para tirar a Carteira de Habilitação, as aulas de Legislação, fico imaginando o que passa pela cabeça de quem as faz obrigatórias. Lógico que é necessário ter uma noção do que se passa no Código de Trânsito, mas daí a decorar as infrações - que, normalmente, continuam a ser cometidas -? O pior é que, se o objetivo é conscientizar, ele vai por asfalto abaixo. Como se costuma fazer após uma avaliação, esquece-se do que foi estudado, principalmente, na prática. Prova disso são as altas taxas de morte no trânsito. Será que toda essa burocracia é, de fato, a solução? O ditado "santo de casa não faz milagre" é verdadeiríssimo no Brasil. Décadas depois dos estudos de Paulo Freire, inclusive ressaltando a importância da autonomia do aluno, ainda se insiste na imposição das determinações, sem diálogo algum. Em um local onde, ao invés de preocuparem-se em mudar a lei, os "cidadãos" preferem buscar meios de dar um jeitinho e burlá-la, é, realmente, muito mais conveniente.
Segunda-feira, horário de pico, terminal lotado. Como de costume, ele senta no mesmo banco, para esperar o mesmo ônibus. Entra-e-sai, pregações, conversa e barulho, muito barulho. Tudo seguia em acordo com a normalidade, quando ele sente uma mudança súbita. De repente, como se todos ficassem consternados, o único som que rompe o silêncio é o barulhinho de tic-tac do vendedor. Nem um ônibus, nem uma palavra. Pensamentos somente, e cada um guardando o seu. Ele ficou tão impressionado que mal conseguiu levantar do lugar onde estava sentado; só queria observar, para não estragar aqueles minutos tão improváveis. Em meio à conturbada rotina e às muitas palavras inúteis gastas a todo hora, um diminuto tempo para organizar as ideias parecia um oásis. E foi pouco mesmo. Logo depois, ele se deu conta de estar, novamente, imerso na loucura nossa de cada dia, com os ônibus fazendo seus barulhos característicos e as pessoas correndo. Provavelmente, para viver. Ele, ainda no piloto automático, entrou no Varjota para ir pra casa. Surpreso, acordou com o barulho da cordinha puxada por si mesmo, ao notar que perdera a parada.
A um amigo que, muito mais que a inspiração do texto, me traz a inspiração cotidiana, ainda que ele nem saiba disso.
Mais um aniversário do massacre dos camponeses em Eldorado dos Carajás chega e pouca coisa muda. Apesar de terem ganhado um dia que deveria nos lembrar a injustiça ainda reinante, os trabalhadores sem terra continuam amargando as antipatias usuais das elites e dos meios de comunicação que as refletem, como se lutassem por uma causa imoral. O MST é, frequentemente, reduzido a uma corja de radicais preocupados em danificar a terra alheia. Esquece-se, porém, de que muitos desses latifúndios causam um dano social muito maior, pois permanecem improdutivos, enquanto milhares de pessoas não têm, literalmente, onde caírem mortas. A grande mídia, por sua vez, exerce, magistralmente, o papel de conservadora do status quo, já que reforça, de todas as formas possíveis, os preconceitos e satanizações do movimento. Li, uma vez, não tenho certeza se era verdade, que existe, no Amazonas, uma fazenda do tamanho do estado de Sergipe. Verídica ou não, a informação ilustra a gravidade da questão fundiária no Brasil. Em uma situação assim, reforma agrária só pode ser considerada obra do capeta mesmo. E, do jeito que a palavra de Deus tem sido usada por quem não devia, não é de surpreender que o coisa ruim cuide do Reino dos Céus.
Uma atualização: Nessa semana, aqui no Ceará, onde não imaginava que os conflitos por terra fossem tão intensos, um líder comunitário foi cruelmente assassinado, provavelmente, pelas causas que defendia. São muitos, quantos mais teremos que contar?
Confesso que tive dúvidas para escolher sobre o que escrever nestes dias. Mais cedo, abri meu email e a definição veio: recebi um bom texto de Frei Betto, no qual ele comentava os últimos acontecimentos da Igreja. Vou apenas reproduzi-lo abaixo, pois o que eu poderia dizer, já foi colocado - e de uma forma bem mais competente -.
Vinde a eles as criancinhas? - Frei Betto*
As sucessivas denúncias de pedofilia e abuso sexual cometidos por sacerdotes e acobertados por bispos e cardeais envergonham a Igreja Católica e abalam a fé de inúmeros fiéis. No caso da Irlanda, onde mais de 2 mil crianças entregues aos cuidados de internatos religiosos foram vítimas da prática criminosa de assédio sexual, o papa Bento XVI divulgou documento em que pede perdão em nome da Igreja, repudia como abominável o que ocorreu e exige indenização às vítimas. Faltou ao pontífice determinar punições da Igreja aos culpados, ainda que tenha consentido em submetê-los às leis civis. O clamor das vítimas e de suas famílias exige que a Santa Sé aja com rigor: suspensão imediata do ministério sacerdotal, afastamento das atividades pastorais e sujeição às leis civis que punem tais práticas hediondas. A crescente laicização da sociedade europeia reduz drasticamente o número de fiéis católicos e a freqüência à igreja. O catolicismo europeu, atrelado a uma espiritualidade moralista e a uma teologia acadêmica, afastado do mundo dos pobres e imbuído de um saudosismo ultramontano que o faz ignorar o Concilio Vaticano II, perde sempre mais o entusiasmo evangélico e a ousadia profética. Dominado por movimentos fundamentalistas que cultivam a fé em Jesus, mas não a fé de Jesus, o catolicismo europeu cheira a heresia ao incensar a papolatria e encarar o mundo não mais como vale de lágrimas e sim como refém de um relativismo que corrói as noções de autoridade, pecado e culpa. Ao olvidar a dimensão social do pecado, como a injustiça, a opressão, o latifúndio improdutivo ou a apologia da desigualdade, o catolicismo liberal centrou sua pregação na obsessão sexual. Como se Deus tivesse incorrido em erro ao tornar a sexualidade prazerosa. Como o Espírito Santo se vale de vias transversas para renovar a Igreja, tomara que as denúncias de pedofilia eclesiástica sirvam para pôr fim ao celibato obrigatório do clero diocesano, permitir a ordenação sacerdotal de homens e mulheres casados e ultrapassar o princípio doutrinário, ainda vigente, de que, no matrimônio, as relações sexuais são admissíveis apenas quando visam à procriação. Ora, tivesse Deus de acordo com tal princípio, não teria feito do gênero humano uma exceção na espécie animal e, portanto, destituiria o homem e a mulher da capacidade de amar e expressar o amor por meio de carícias e incutiria neles o cio próprio dos períodos procriatórios dos bichos, o que os faz se acasalar. Jesus foi celibatário, mas é uma falácia deduzir que pretendeu impor sua opção aos apóstolos. Tanto que, segundo o evangelho de Marcos, curou a sogra de Pedro (1, 29-31). Ora, se tinha sogra, Pedro tinha mulher. E ainda foi escolhido como primeiro cabeça da Igreja. Os evangelhos citam as mulheres que integravam o grupo de discípulos de Jesus: Suzana, Joana etc. (Lucas 8, 1-3). E deixam claro que a primeira pessoa a anunciar Jesus como Deus entre nós foi uma apóstola, a samaritana (João 4, 39). Nos seminários e casas de formação do clero e de religiosos é preciso avaliar se o que se pretende é formar padres ou cristãos, uma casta sacerdotal ou evangelizadores, pessoas submissas ao figurino romano ou homens e mulheres dotados de profunda espiritualidade evangélica, afeitos à vida de oração e comprometidos com os direitos dos pobres. No tempo de Jesus, as crianças eram desprezadas por sua ignorância e repudiadas pelos mestres espirituais. Jesus agiu na contramão dos preceitos vigentes ao permitir que as crianças dele se aproximassem e ao citá-las como exemplo de fidelidade a Deus. Porém, deixou claro que seria preferível amarrar uma pedra no pescoço e se atirar na água do que escandalizar uma delas (Marcos 9, 42). As sequelas psíquicas e espirituais daqueles que confiaram em sacerdotes tarados são indeléveis e de alto custo no tratamento terapêutico prolongado. As vítimas fazem muito bem ao exigir indenização. Resta à Igreja punir os culpados e cuidar para que tais aberrações não se repitam. *Escritor e assessor de movimentos sociais.
Espera-se que a justiça seja feita - sem diferenciações - para ver se as Igrejas, de um modo geral, passam a enxergar as necessidades dos seus fiéis, já que muitos não têm nem o pão nosso de cada dia.